4.11.06

Realidade


Estou simplesmente cansada...cansada de ver a sociedade onde estou inserida a agir de forma injusta, senão hipócrita, sobre a liberalização do aborto! Talvez a questão não seja um sim ou um não, mas sim a realidade!

Não esqueço a realidade da instituição onde trabalho, onde tudo é feito e refeito para se conseguir proporcionar uma vida melhor aos jovens, cujos pais simplesmente não querem saber deles...os jovens de uma sociedade que os rejeita...os jovens que nunca conseguiram ter uma familia... os jovens que vão estar o resto das suas vidas sozinhos... revoltados... abandonados... Que sociedade é esta que insiste em falar na vida, na liberdade e ao mesmo tempo vira a cara e fecha todas as portas àqueles que não encaixam nos seus parâmetros ditos "normais"....que sociedade é esta que cria elites e ensina os próprios filhos a não se aproximarem daqueles que são "anormais" ou "filhos da pobreza”…

Chamamos vida, ao inferno que todos criamos para aqueles que não têm a sorte de ter uma "boa família".... Chamamos vida às crianças que são diariamente abusadas, exploradas, abandonadas e maltratadas... chamamos vida, aos quartos de bebé que deixam escorrer água e se revestem de maus-cheiros e ar saturado....chamamos vida às lágrimas que escorrem face a baixo por nunca ter existido uma infância...

A realidade que defendemos não existe... a salvação que tantos apregoam nunca chegou...a realidade é só uma e continuamos a fazer de conta que não existe... é mais fácil julgar a mulher que não tem forma de esconder, num outro país, a sua dor... a mulher que, muitas vezes, faz a opção mais difícil da sua vida...a mulher que sozinha carregará a culpa de não ter outra opção... a mulher que sacrifica um estado de graça para que o seu filho não seja mais um dos "excluídos" da nossa sociedade...


Pena não culparmos as mães que diariamente se recusam a educar os seus filhos...as mães que se recusam a amamentar para não ficarem "feias"... As mães que empanturram os filhos com fast-food e Coca-Cola porque estragar o verniz das unhas ao jantar é um grande problema....as mães que "enfeitam" os seus queridos filhos com bens materiais para que sejam vistos por todos, menos por elas....

Esta é a nossa realidade... o Aborto só poderá ser prevenido a partir do momento em que olharmos para ele...mais do que julgar a sua existência, é imperativo deixarmos de contornar um problema que é de todos nós... é importante perceber que amanhã posso ser eu!


Sou a favor da vida... sou a favor da liberdade... sou a favor da justiça e da felicidade! Sou mulher!

2 comentários:

R. Carvalho disse...

Detesto esse argumento da escolha da mulher...Num casal, que se possa na realidade chamar casal, será que não sofrem ambos psicologicamente ao decidirem-se por um aborto? Ou ao não se decidirem? Tudo bem, a mulher tem a última palavra, mas...

Quanto ao referendo em si, detesto este movimentos pró-escolha e pró vida! Vão todos pra... Vamos debater a despenalização e deixar a teoria das escolhas para depois! Eu, votaria sim se podesse. Acima de tudo para acabar coma hipocrisia que reina na sociedade: clinicas ilegais e muitas vezes sem condições sanitárias, abortos no estrangeiro para quem pode, etc...E também para se poder, dentro do sistema nacional de saúde, prestar o apoio psicológico que neste momento não é possível prestar pois tal constituiria uma ilegalidade.

Com isto tudo, só gostaria de perceber porque é que 11 dos juízes do TC votaram contra o voto dos emigrantes... Será que esses movimentos pró-qq coisa me podem responder a isso?

Beijo

moranguito disse...

A vida é injusta para muitos. Ao contrário do que se diz, o sol quando nasce, não é para todos. È nossa função trabalhar para que algo mude. Espero que respeites a minha opinião, penso de maneira diferente. Neste referendo, como no último, defendi a vida e vou continuar a faze-lo. Um dos mais notáveis direitos de cada um, desde o momento da concepção, é o direito à vida. E nenhum de nós pode decidir por quem ainda não tem voz. Não se trata de uma decisão consciente de pôr fim à vida, como sucede na eutanasia. Falamos apenas de uma decisão de terceiros que leva à morte de alguem, numa fase prematura de vida. Não podemos decidir pelos outros. Um dos argumentos que tenho ouvido diz repeito ao facto de a mulher poder decidir sober o seu próprio corpo. Que falta de reflexão! Claro que pode decidir sobre o seu corpo. NÂO PODE È DECIDIR SOBRE O CORPO DE OUTRA PESSOA QUE CRESCE DENTRO DE SI.... cabe aos governos, cabe a cada um de nós, construir uma sociedade que apoie as mães, especialmente as mais desfavorecidas, para que nenhuma mão deseje sequer que um filho seu morra antes de ser alguem.... viva a vida... lamento a insistencia de determinados partidos "fascizoides" que fingem que andam a defender as mulheres e os seus direitos... meus amigos.. eles defendem é uma vitória ideológica à esquerda. Neste caso, a vitória da perda dos valores...Ai os valores, escorregam-nos pelos dedos....