28.4.07

Descompliquem e Cuidem-se!!!

Estudo português volta a destacar o peso dos factores psicológicos na cama

por Clara Soares

As roupas são atiradas para o chão, os namorados envolvem-se em carícias mais intensas. Tudo parece correr às mil maravilhas, mas os neurónios dos protagonistas aventuram-se por terrenos pantanosos. «E se ele olhar agora para a minha barriga? Vai ver a maldita celulite...», rumina ela, mudando rapidamente para outra posição. «Tenho que a satisfazer, não posso fraquejar agora», diz ele para si mesmo, enquanto a aperta contra si com o sorriso mais provocador que consegue fazer no estado de pressão que sente. O guião desenrola-se como esperado, mas passado algum tempo as vozes internas começam de novo a ecoar. «E se eu não for capaz de repetir?», adivinha-se na expressão dele. «A única coisa que quer é satisfazer-se», ocorre-lhe a ela, durante os minutos silenciosos em que retomam os preliminares.

Cenários deste tipo são comuns nos jogos de alcova dos portugueses. A confirmá-lo, os resultados de uma investigação realizada no ano passado pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), apresentada este mês no primeiro congresso sobre saúde sexual, em Sydney, na Austrália (e considerado o segundo melhor manuscrito). Com base numa amostra de 662 participantes (sendo 96 deles utentes das consultas de sexologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra), o psicólogo Pedro Nobre, 37 anos, conclui que os pensamentos e as crenças sexuais influenciam as condutas íntimas e revelam-se determinantes no desenvolvimento de disfunções. «Isto acontece», explica, «quando os insucessos experimentados ao longo da vida se interpretam de modo catastrófico - "Sou um falhado", "Sou sexualmente incompetente" -, levando a pessoa a focar-se na antecipação do fracasso e não no prazer da situação.»

A análise dos resultados mostrou que os mitos tradicionais e conservadores coexistem com crenças irrealistas acerca do desempenho sexual. Exemplo disso é a ideia do macho latino, sempre pronto para a acção. O nível de exigência é tal que qualquer imprevisto que conduza a uma falha - cansaço, consumo de álcool em excesso, por exemplo se traduz numa grande fragilidade pessoal e, em última instância, em reacções de evitamento. Outro dado revelador: homens e mulheres com disfunções alimentam ideias limitativas face à sexualidade (exemplos - a mulher satisfaz-se sobretudo com a potência do pénis; após a menopausa deixa de ter desejo; se pouco atraente, não consegue ser feliz na cama). Além disso, há tendência para a autoculpabilização e fracas expectativas de êxito no futuro, e raramente florescem pensamentos eróticos.

Mick Jagger "dixit "

Aqui poderia aplicar-se a expressão cunhada pelos Rolling Stones: homens e mulheres que não se sentem bem na sua pele sexual dificilmente obtêm satisfação e prazer, e os seus encontros são acompanhados de tristeza e desilusão. «Faltam crenças mais flexíveis na sexualidade», defende Pedro Nobre, que dirige actualmente o mestrado em Psicologia Clínica na UTAD. A chave para o bem-estar reside na mudança de estilos de pensar e sentir, «um trabalho que pode ser longo e passa pela descoberta de outras formas de interpretar as situações vividas».

Esta e outras pesquisas mostram que, contrariamente ao que se pensava desde os estudos de Masters & Johnson, não é tanto a ansiedade que inibe a resposta sexual, mas antes a presença ou a ausência de emoções positivas.

Para Pedro Nobre, o peso dos factores psicológicos no sexo deve ser reequacionado: «Trabalhos recentes mostram que as soluções farmacológicas, apesar dos seus efeitos de erecção, ficam aquém das expectativas de muitos homens e não funcionam na maior parte das mulheres.» Lá está - a cabeça é que manda.

"Top" das disfunções

Em 2003, o psicólogo clínico Pedro Nobre analisou, para a sua tese de doutoramento, os comportamentos sexuais de 566 portugueses. Concluiu que 52% dos homens e 76% das mulheres apresentavam dificuldades, assim elencadas:

Mulheres

Falta de desejo; Orgasmo difícil; Problemas de excitação, Dor na penetração

Homens

Ejaculação precoce; Falta de desejo; Perturbação do orgasmo; Disfunção eréctil

O que lhes passa pela cabeça

Mulheres

- Abuso sexual, Passividade, Fracasso/Desistência, Falta de afecto, Fraca auto-imagem corporal

Homens

- Dever de erecção, Antecipação do fracasso, Medo da idade


in Visão

26/04/07

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