26.2.10

Joi



Chegaste lá a casa porque fomos os únicos a aceitar-te...
os teus donos deixaram de poder tomar conta de ti...estavas habituado a passar o dia sozinho dentro de um apartamento...nunca nos estranhaste...talvez tenhas sentido que te achámos irresistível desde o primeiro momento...tinhas o dom de encantar e de enganar quem não sabia o lingrinhas que eras...a menos que te fossem à taça da comida...ou te tirassem do sofá...

O teu rabo foi sempre a tua perdição...nunca o tiveste bonito como pedia o resto da tua imponência...com isso obrigaste o dono a pintar todo o exterior da casa por te encostares sucessivamente às paredes para o agarrares melhor...arrancavas as pedras da calçada e a relva do jardim...cavaste um buraco de tanto andar à roda....os castigos nunca funcionaram...fazias sempre o que querias...enganavas o dono grande como ninguém...ele sempre achou que até eras um anjinho obediente...até ao dia em que ele entrou em casa com um outro carro...

Tinhas um fetiche pelos meus pés, nunca percebi porquê...empurravas-me de manhã com o teu lombo, ao ponto de eu quase cair...talvez fosse vingança dos sustos que te preguei enquanto dormias ao sol de barriga para o ar...adoravas a fruta do pomar e perdi a conta das maçãs que comeste entre as tuas patas cruzadas para a segurares melhor...arrotavas com classe...agoniavas-te com café...regulaste a minha ansiedade em época de exames...e defendeste-me quando menos esperava...

Idolatravas a dona grande ao ponto de não ligares ao resto do mundo...a mangueira e água eram o teu desafio...fizeste greve de fome pelas paixões que tiveste...
adoravas passear e andar de carro...adoravas as visitas da Ana e o Fiat Uno era o teu carro de eleição...detestavas que te penteassem, a não ser que fosse eu, com a tarde livre e toda a calma do mundo...e aí ressonavas de consolo...tinhas um pêlo horrível, por falar nisso...

Envelheceste...porque não eras imortal como sempre te vi...perdeste as forças, mas nunca a tua compostura...e deixaste uma marca...porque eras o Joi, o Cão, o Meu Cão!

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